"Oswald de Andrade costumava caracterizara Antropologia como "a transformação do Tabu em totem". Assim, no canibalismo ritual tupi que lhe serve de modelo, o tabu, o " desfavorável", o inimigo, seria transfigurado no totem, o "favorável", elemento de identificação, numa operação de transvaloração que não incorpora o outro ao mesmo, mas produz o que Eduardo Viveiros de Castro chamou de "identidade ao contrário", visível nos novos nomes que eram adquiridos na cerimônia e que abriam o guerreiro a uma exterioridade constitutiva. E por muito tempo (até hoje), os povos indígenas foram (são) considerados o tabu do Estado brasileiro, elemento contrário que deve ser reduzido a um único nome, "indio", de modo a ser eliminado para o "desenvolvimento", canibais, atrasados, entraves aos grandes empreendimentos que aceleram a chegada de um futuro que não cessa de não chegar. Mas há nesse entrave uma luta, nessa subsistência uma resistência, que aos poucos, mas nunca suficientemente, reverbera entre nós (outros), como na reação de milhares que dissemos, nas ruas e nas redes: "Sou Guarani-kaiowá" e também Munduruku ou Kaiapó, adotando simbolicamente como sobrenome, como nome de família, o nome de inúmeros povos diariamente ameaçados pelas hidrelétricas, disputas fundiárias, mineradoras. Daí a importância do gesto de André Valias nesse poema, que dá forma, ou melhor, como toda poiesis efetiva, metamorfesia esse procedimento em uma fórmula aberta da multiplicação: transfigura a nomeação e identificação proliferante em um modo, que mostra que "virar índio" é , antes de tudo, abrir-se multiplicidadee à exterioridade."

Alexandre Nodari


idioma: GUARANI, Português, Inglês
formato: 13,8 x 21
páginas: 48
ano de edição: 2017
edição: 1ª :: Azougue | Cultura e Barbárie

Totem [André Vallias}

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